Introdução

 

FAMÍLIA COM PROJETO


Nos dias de hoje, em tempos de impermanência, quando tudo é descartável, e a vida parece flutuar embalada pelos caprichos do consumo, temos sede de valores humanos e de exemplos que nos fortaleçam espiritualmente, na certeza de acertar o passo rumo a um mundo novo, que possamos ajudar a criar. E, este mundo novo, não o criamos a partir do nada, pois temos um lastro no passado, na boa tradição, que é a base fecunda para a novidade bem-vinda. Nada mais fecundo do que uma base familiar, assentada numa história de experiências amorosamente nutridas.


Pensando nisso, um grupo de primos, no Instituto Ana Rosa, tem trabalhado amorosamente, em contato com as várias gerações da família, e se esforça por retecer a história de que somos fruto, para renovar nosso ardor criativo e libertário rumo ao futuro, legando este acervo vivencial às próximas gerações.


A família Souza Queiroz, que se quer família, e tem uma motivação muito profunda em fazer parte de uma história comum, vem demonstrando, ao longo dos últimos duzentos anos, que alenta um projeto, calcado num carinhoso, persistente e árduo trabalho. Este projeto tem levado a empreendimentos corajosos, que trouxeram grande benefício não só para a nossa família, mas para toda a gente brasileira.


Tantos gestos importantes mereceram muito pouca celebração e nós mesmos, descendentes de seus autores, desconhecemos boa parte de nossa história. Por isso é hora de redescobrir e preservar este projeto coletivo da família, de uma família brasileira, mas votado a todos os brasileiros: um projeto humano, social, político, econômico, educacional, criador de sociabilidade e solidariedade. Um projeto humanista, que valoriza a convivência familiar, humanizador nas relações pessoais e sociais, politicamente liberal avant la lettre, iniciado ainda nos tempos coloniais.


Chegamos à raiz mais profunda dessas motivações ao conhecermos a natureza dos inúmeros projetos humanitários da família, entre os quais se conta o próprio Instituto Dona Ana Rosa, a Casa Pia São Vicente de Paulo, a Casa da Criança de Leme “Cecília de Souza Queiroz”, o Colégio Dona Carolina Tamandaré, a Casa de Maria Imaculada, a Creche Baronesa de Limeira, a Maternidade São Paulo, o Sanatório Vicentina Aranha, a “Nossa Casa” e o Dispensário Nossa Senhora de Lourdes.


Na ausência de iniciativas públicas, ou antes delas, tais iniciativas começaram dentro da família, como materialização dos valores humanos e religiosos professados e transmitidos de geração a geração. Em termos mais pobres, podemos dizer que este espírito configura e anuncia aquilo que hoje chamamos de responsabilidade social, embora tal termo venha sendo desgastado por um uso algo demagógico por parte da auto-propaganda de muitas empresas.


Na verdade, muito antes deste conceito existir, a família devotava o melhor de si a estas tantas iniciativas, que exigiam e exigem um envolvimento pessoal e uma atitude ética de grande envergadura. Tão grande era a responsabilidade e o empenho, que a própria baronesa de Souza Queiroz chegava a tratar pessoalmente dos leprosos de suas fazendas. Ela achava que não podia expor nenhuma outra pessoa, mesmo escravo, ao risco de ir levar os alimentos aos leprosos, e de cuidá-los, pelo medo de contaminação que reinava na época. Como não queria abandoná-los, ela ia pessoalmente e resolvia tudo sozinha...


Temos aqui pensamentos, valores e condutas, reavivados, cujos indícios gravitam à nossa frente e se expressam de várias formas, oferecendo-se a nós como lastro para a criação do futuro. Tal é a motivação destas páginas e o voto de esperança que elas encaminham às gerações futuras.


D. Carlos Eduardo Uchôa Fagundes Jr., OSB


 

PATRIARCAS DA FAMÍLIA 

BRIGADEIRO LUIZ ANTÔNIO


O brigadeiro Luiz Antônio de Souza Macedo e Queiroz, pai do barão de Souza Queiroz, mais conhecido como brigadeiro Luiz Antônio de Souza, nasceu possivelmente em Amarante, Arcebispado de Braga, Província do Douro, provavelmente na vila de São Gonçalo, em Portugal, e faleceu em São Paulo a 30 de maio de 1819.


O brigadeiro teria sido o primeiro barão de Souza Queiroz, segundo Ricardo C. Amaral, seu descendente, em “The Brazilian Ruling Class”, de 2003. Diz ele que “os arquivos do Império Português mostram que o título e o brasão de armas foi transferido ao novo barão de Souza Queiroz, o brigadeiro Luiz Antônio de Souza, em 5 de fevereiro de 1818, como registrado no livro 1, página 80, do Cartório da Nobreza, em Portugal”.


Luiz Antônio veio para o Brasil aos 20 anos, com um de seus irmãos, Francisco Antônio de Souza. Devido ao trabalho como tropeiro, entretanto, “profissão mecânica” vedada aos nobres, seu irmão transmitiu-lhe o pedido da família de que não usasse o sobrenome Queiroz, que era de família conceituada na corte portuguesa. Luiz Antônio atendeu-o, segundo a obra “História da cidade de São Paulo através de suas ruas”, de Ernani Silva Bruno e não usou o sobrenome até sua morte.


Sentou praça na Companhia de Cavalaria de Itu, mas posteriormente, junto com o irmão, fez fortuna levando tropas de burros com mantimentos para Cuiabá, onde fora sido descoberto ouro de aluvião em 1720. Essas tropas de burros eram as “transportadoras” da época e a única solução para mitigar as fomes cíclicas nas Minas, onde todo mundo lutava pelo ouro, mas ninguém plantava.


Casou-se também em Itu, em 1797, com Genebra Barros Leite (Genebra Leite de Barros, segundo seu testamento), de antiga família paulista, também enriquecida graças ao ouro de Cuiabá. d. Genebra era natural de Itu e a partir de então o brigadeiro, já o mais rico homem de São Paulo, passa a residir na Capital.


O Brigadeiro teve seis filhos: Francisca Miquelina de Souza Queiroz, casada com seu primo, coronel Francisco Ignácio de Souza Queiroz; Ilídia Mafalda de Souza Rezende, casada com o senador Estevão Ribeiro de Rezende e marquês de Valença; Francisco Antônio de Souza Queiroz, barão de Souza Queiroz, casado com Antonia Eufrosina de Campos Vergueiro; Luiz Antônio de Souza Barros, comendador, casado em primeiras núpcias com Ilidia Mafalda de Souza Barros e, em segundas núpcias, com Felicíssima de Almeida Campos Barros; Vicente de Souza Queiroz, barão de Limeira, casado com Francisca de Paula Souza; e Maria Innocencia de Souza Queiroz. Desses, três são fundadores do Instituto Dona Ana Rosa, o barão de Souza Queiroz, Luiz Antônio de Souza Barros e Vicente de Souza Queiroz.


Em “Memória sobre a viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá”, de 1826, o oficial português Luiz D’Alincourt refere-se ao brigadeiro e à sua fortuna. Comenta que a agricultura era magnífica na região de Campinas, por não haver saúvas na área “que são fatais às plantações” e diz que “há no termo desta Vila sessenta engenhos, contando os do fabrico de aguardente, quinze dos quais são movidos por água e outros muitos se podem levantar por esta maneira cômoda. O principal senhor de engenho é o Coronel de Milícias Luiz Antônio, morador de São Paulo, homem ajudado pela fortuna de um modo espantoso, e que possui uma das mais sólidas casas do Brasil; só ele, em Campinas, tem dezesseis engenhos, um dos quais lhe rendeu em 1817 nove contos de réis; a sua colheita anual não desce de trinta mil arrobas de açúcar e a renda da sua casa anda em oitenta mil cruzados. Além desta, existem outras de bons fundos. A do coronel Francisco Antônio de Souza anda de dez, a doze mil arrobas, em cinco engenhos, quatro dos quais são próprios”.


A vida militar do futuro brigadeiro começa na Companhia de Cavalaria de Itu, como tenente, em 19 de março de 1786, no Regimento de Milícias e Dragões e viria a reformar-se em 1818, já como brigadeiro. Na sua missão militar recebe do governo paulista o seguinte ofício, que nos chegou: “Tendo de partir da Villa de Porto Feliz huma Expedição para o Cuiabá, conduzindo pelo Rio vários Petrechos de Guera, q´s. Mge. pa. ali Manda; Determinamos a V.S. passe as mais pozetivas Ordens e sem perda de tempo ao Commandante das Comp. as do Regimto. do seu Commando aquarteladas naquella Villa, pa. q´o Cap. Mor da ma. possa utilizar-se dos milicianos, q’ S. Mge. Pa. ali Manda: Determinamos  V. S. passe as mais não só dos q’ forem próprios p a Expedição, como dos q lhe forem mister para guarda dos Armazéns, em q’ devem seguir na mencionada Expedição. Deos ge. A V.S. S. Paulo, 13 de abril de 1818 – D. Manuel Bispo – D. Nuno Eugênio de Róssio e Seilbliz – Miguel José de Oliveira Pinto”.


O brigadeiro criou de maneira informal o primeiro banco da cidade, aceitando dinheiro das pessoas que o possuíam e que utilizava nos seus empreendimentos, pagando juros, algo tão extraordinário para a época, que, em agradecimento, recebia vários presentes ofertados por quem deixava dinheiro sob sua guarda. Esses presentes eram galinhas, vinhos, tachos de doce, etc.


Mantinha o brigadeiro chácaras perto de São Paulo, como a “Chácara da Consolação”, herdada por seu filho, o barão de Souza Queiroz e outra chácara englobando a atual rua Riachuelo, onde ficava o começo da atual avenida Brigadeiro Luiz Antônio, herdada pelo filho Vicente de Souza Queiroz, barão de Limeira. Residia, porém, em São Paulo, numa casa na esquina da rua São Bento com a do Ouvidor, em casa sobre a qual diz Affonso de E. Taunay: “o enorme casarão do Brigadeiro Luiz Antônio de Souza, um dos mais opulentos vassalos do Brasil, em princípios do século XIX e possuidor da maior fortuna da Capitania”.


O brigadeiro chegou a ter 16 engenhos de açúcar e instituiu dotes de terras rurais para os filhos, entre os quais Vicente de Souza Queiroz e Luiz Antônio de Souza Barros, que viria a se tornar um dos fazendeiros de maior prestígio em Piracicaba. Segundo o tombamento de 1817, citado por Taunay, era o brigadeiro proprietário de Atibaia, com 40 escravos, Monjolinho, com 60, Palmeira, com 30, tapera com 59, Taquaral com 37, possuindo, pois, 290 escravos. Esse “tombamento” foi feito por ordem de D. João VI, que determinou a 21 de outubro daquele ano que se remetesse à Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra a relação de todos que, por qualquer título de compra, herança, posse ou sesmaria, tivessem terrenos, em cada um dos distritos, tanto na Província do Rio de Janeiro, como no resto do Brasil’.


O “Suplemento Agrícola” do jornal “O Estado de S. Paulo” acrescenta mais uma fazenda às possuídas pelo brigadeiro, pois, na edição de 13/7/1955 comenta que “uma das mais velhas e tradicionais fazendas paulistas – Anhumas, nome atual, na estrada de Campinas a Mogi-Mirim, está agora inteiramente renovada, sem ter perdido as características das grandes herdades coloniais de outrora. A fazenda pertenceu, antes de 1800, ao brigadeiro Luiz Antônio de Souza e, ao que tudo indica, foi quem planejou e mandou executar a casa ampla e confortável, com muitos quartos, como para hospedar dezenas de pessoas”.


Luiz Antônio foi um dos primeiros a contribuir para o estabelecimento da Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, com quatro ações. A fábrica construída por Frederico Luiz de Varnhagen, usava o minério de ferro do morro de Araçoiaba, na região de Piracicaba, onde desde 1585, com Afonso Sardinha, produzia-se ferro artesanalmente. A Real Fábrica de Ipanema, só se torna realmente indústria com Varnhagen que, em 1818 fez a primeira corrida de ferro, para a fabricação de três cruzes. O ferro ali produzido foi vital para a produção de material bélico para a guerra do Paraguai e também para permitir o progresso de São Paulo.


Em 1817, Luiz Antônio considerado o primeiro proprietário e agricultor da Província, possuía quinze fábricas de açúcar, uma das quais administrava pessoalmente. Contribuiu com diversas quantias para a Santa Casa de Misericórdia, para a construção do quartel da Legião de Voluntários, para o Hospital Militar, para o Jardim Botânico e também para a construção do chafariz da Misericórdia e para uma expedição militar no sul do Brasil, para a qual contribuiu com dois contos de réis. Esse fato é contado pelo presidente da Província, em documento publicado como efeméride em “O Estado de S. Paulo” em que acresce que “trata-se a lei da nobreza, e é ele talvez um dos principais negociantes deste Reino; e que tem a propriedade de uma Galera, a primeira que, com cargas desta Capitania, saiu do porto de Santos para o de Lisboa, animando o comércio e manejando avultados cabedais, por cujo motivo tem pago grande somas de direitos, tornando-se desta maneira um vassalo muito útil ao Estado”.


Quando da invasão de Portugal pelas tropas napoleônicas comandadas pelo general Junot, em 1807, o brigadeiro formou um batalhão às próprias custas, armou a galera que possuía e foi para Portugal, ajudando as tropas inglesas a derrotar os franceses e prestando ajuda à família, então em situação crítica. Não era sua primeira experiência como armador de navios, já que o “Dicionário da História de São Paulo” diz que era sua “a primeira galera que partiu de Santos, carregada de mercadorias destinadas a Lisboa”.


Diz a tradição da família que, comovidos pelo gesto e pelo apoio, os parentes de Portugal o autorizam a voltar a usar o sobrenome completo, Souza Queiroz, pois até então estava usando o de sua mãe, Ana Maria de Macedo. Teria recusado para si essa permissão, dizendo que se fizera no Brasil como Luiz Antônio de Souza e que assim queria ser conhecido, não tendo, porém, abdicado de dar seu sobrenome completo a seus descendentes.


A confirmar a tradição familiar, o brasão de armas dos Souza Queiroz foi efetivamente registrado no Cartório da Nobreza em 1818, um ano antes da morte do brigadeiro e a pedido do próprio, já que o futuro barão de Souza Queiroz à época não tinha sequer chegado à maioridade, pois estava com pouco mais de 11 anos.


O brigadeiro Luiz Antônio foi financiador e sócio do senador Vergueiro, com quem funda, em 1816, a “Vergueiro & Souza”, cujo objetivo era a exploração agrícola de vastos tratos de terra na zona de Piracicaba, antiga Vila da Constituição. Com os recursos provindos do Brigadeiro, Vergueiro deixa de advogar e muda-se para o “sertão”, para desenvolver as fazendas.


Ao morrer, o brigadeiro deixou uma fortuna de 750 “contos fortes”, ao câmbio de 54 por mil réis (um de seus engenhos de açúcar de Campinas chegou a render em 1817 a quantia de 9:000$000). A renda anual do brigadeiro subia a 32:000$000 - isso num tempo em que o mil-réis valia mais de duas libras esterlinas.


Seu testamento, ditado a 24 de maio de 1819, apenas 6 dias antes da morte, mostra que era extremamente religioso, pois deixa dotações para serem enviadas a Portugal, onde seus irmãos deveriam entregá-las à Santa Casa de Misericórdia, deixa dinheiro para ser repartido entre os pobres, para manutenção de leprosários, para o Recolhimento de Nossa Senhora da Luz, de Santa Teresa, para a Ordem Terceira de São Francisco, ao convento de São Francisco, para a Capela do Rosário dos Homens Pretos, para a Capela da Senhora da Boa Morte, para grande número de missas e pede a doação de um hábito de São Francisco, para com ele ser enterrado no jazigo da Venerável Ordem Terceira de São Francisco.


O Museu Paulista guarda o colete da antiga indumentária de gala dos membros do Senado da Câmara de São Paulo, “que pertenceu ao Brigadeiro Luís Antônio de Sousa M. e Queirós”, com esta grafia.


 

BARÃO DE SOUZA QUEIROZ


Francisco Antônio de Souza Queiroz, que viria a ser barão de Souza Queiroz, nasceu em São Paulo, numa casa da rua do Ouvidor, em 8 de dezembro de 1806 e faleceu também em São Paulo, na sua casa, localizada na rua José Bonifácio, número 30, em 4 de julho de 1891. Era filho do brigadeiro Luiz Antônio de Souza, fidalgo português, e de sua mulher, Genebra de Barros Leite de Souza. Foi chamado de Francisco Antônio em homenagem a seu tio, Francisco Antônio, que veio de Portugal em companhia do irmão.


Com 13 anos de idade, Francisco Antônio foi enviado a Portugal, para se formar em Coimbra, onde cursou até o terceiro ano de Direito, mas, ao receber a notícia do falecimento do pai voltou ao Brasil, para dirigir as importantes propriedades agrícolas fundadas pelo Brigadeiro. Aos 18 anos teve que assumir o controle do patrimônio da família e com grande sucesso. O motivo é que sua mãe casara-se novamente, com José da Costa Carvalho, 15 anos mais moço que ela e que, segundo consta na família, não tinha tino para os negócios, enfrentando problemas para gerir a fortuna deixada pelo brigadeiro.


Grande empreendedor, o barão dedicou-se inicialmente à agricultura e aos negócios da família, formando grande fortuna. O viajante Luiz D’Alincourt, oficial de engenheiros português que em 1826 escreveu o livro “Memória sobre a Viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá” descreve as fazendas pelas quais passou em Campinas, fala “a (fazenda) do coronel Francisco Antônio de Souza anda de dez a doze mil arrobas (de açúcar), em cinco engenhos, quatro dos quais são próprios”.


Casou-se em 1833, com Antonia Eufrosina de Campos Vergueiro de Souza Queiroz, filha do senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro e de sua mulher, Maria Angélica de Vasconcellos, esta última sendo prima de Genebra, mãe do Barão. O casamento certamente foi propiciado pela proximidade do pai do barão com o senador Vergueiro, pois em 1816, Vergueiro e o brigadeiro criaram a sociedade “Vergueiro & Souza”, para explorar vastos tratos de terra na zona da antiga Vila da Constituição, atual Piracicaba.


O barão teve 13 filhos, um dos quais, José, o primeiro do nome, morreu quase na adolescência, a bordo de um navio que o reconduziria ao Brasil e outro, Alfredo, morreu jovem, durante seus estudos em Hamburgo, Alemanha, onde a maioria dos filhos se instruiu.


Construiu também inúmeros imóveis na cidade de São Paulo e diz a memória da família que tudo que recebia a título de aluguéis, investia na compra de terrenos e na construção de imóveis. Adquiriu grande parte da atual rua Florêncio de Abreu, onde construiu 26 casas e proximidades da Estação da Luz, área em que se localizam os entrepostos comerciais para Santos, onde também mantinha uma empresa comissária, para venda de café.
Os imóveis construídos pelo barão tinham dois ou três andares, depósito na parte de baixo e quartos na área assobradada, suprindo a falta de hotéis para viajantes e comerciantes. Ainda nos mesmos imóveis havia salão para refeitório. Chegou a ter mais de 200 casas, conforme seu formal de partilha.


Foi ainda o barão um dos fundadores e o maior acionista da Companhia Paulista de Vias Férreas e Fluviais, que dirigiu por 11 anos e que batizou uma de suas locomotivas e uma estação de estrada de ferro com seu nome. A ferrovia ia de Jundiaí a Porto Ferreira onde o caminho continuava por via fluvial, pelo rio Mogi-Guaçú, até Ribeirão Preto.


Criou também a Companhia Navegação Fluvial Paulista que, em abril de 1881 lançou um navio a vapor, “Barão de Souza Queiroz”, numa experiência de navegação do rio Piracicaba. Foi, juntamente com seu filho, José de Souza Queiroz, fundador do Banco do Commércio e Indústria de São Paulo S/A, em 1890, criado um ano antes da morte do barão.


Eleito vereador da Câmara Municipal de São Paulo, foi depois deputado provincial, deputado geral na 6° legislatura, de 1845 a 1847, vice-presidente da Província de São Paulo, assumindo em 3 de outubro de 1834. Segundo Tito Livio Ferreira, em “História de São Paulo”, o quinto presidente da Província de são Paulo foi o coronel Francisco Antônio de Souza Queiroz, nomeado a 27 de maio de 1835 e tomou posse a 31 de maio do mesmo ano.  Novamente convidado a assumir a vice-presidência, recusou o cargo. Em 1835 foi também Vice-presidente da Assembléia Provincial por unanimidade, com apoio de todos os Partidos. Posteriormente, em 1848, foi nomeado senador do Império, por São Paulo. Era o terceiro da lista, sendo em primeiro, o brigadeiro Rafael Tobias de Barros, marido da Marquesa dos Santos, o qual foi logo eliminado pelo imperador. Foi coronel-chefe da Legião da Guarda Nacional, nomeado em 1837. Grande do Império, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a partir de 1845, e do Instituto de São Paulo. Recebeu em 1822 a Imperial Ordem do Cruzeiro, foi Comendador da Imperial Ordem de Cristo em 27 de abril de 1846 e recebeu o título de Dignitário da Imperial Ordem da Rosa em fevereiro de 1867.


O título de "Barão com grandeza”, foi concedido em 14 de outubro de 1874 e o Barão inicialmente o recusou, pois era uso no Império que o título fosse dado com o nome de uma cidade, como seu próprio irmão o recebeu, Barão de Limeira. Francisco Antônio explicou, porém, ao imperador, que o título absorveria seu nome de família, que prezava muito (deve ter levado em conta que o nome fora recuperado, depois de perdido pelo pai, brigadeiro Luiz Antônio de Souza). Diante disso, D. Pedro II respeita sua vontade, dando-lhe o título, mas mantendo o nome, Barão de Souza Queiroz.


Apesar do título, o Barão sempre foi modesto, não dava grande importância a honrarias e cargos. Conta-se que quando encontrou um de seus filhos procurando a documentação sobre a origem e fidalguia da família, o barão o admoestou: “Lembre-se de que de nada valerá, se você, por si mesmo, não fizer por merecer seus títulos”. Já barão, em 1874 recebe em sua casa o conde d’Eu e sua esposa, a princesa Isabel. Era a primeira viagem que o casal fazia a São Paulo, e, segundo Tito Livio Ferreira, em “História de São Paulo”, volume 2, pg. 258, “a sociedade paulista comparece ao grande baile, realizado a 30 de outubro, em honra do Príncipe, na casa do senador Barão de Souza Queiroz, na rua do Ouvidor, antiga da Cadeira e hoje José Bonifácio, esquina de São Bento”. (Na família ficaram famosos os candelabros de bronze, enfeitados com peças de cristal em forma de grandes gotas que, segundo os mais velhos, foram adquiridos para a recepção ao Imperador, mas que possivelmente o foram para a recepção à princesa Isabel).


É de Rangel Pestana um dos raros depoimentos sobre a vida domiciliar do Barão. Diz ele que “penetrar esse lar, ver pais, filhos e netos reunidos é um dos mais belos quadros da família brasileira em suas tradições religiosas com os antigos costumes que relembram a simplicidade de nossos antepassados.


Ainda que se não professem as mesmas tradições, ainda que se tenha tido uma educação mais livre (Rangel Pestana era republicano) sente-se ali a gente feliz e insensivelmente segue aqueles exemplos de virtude doméstica. Vem dessa educação um fato louvável de ser a família Souza Queiroz muito unida e guardarem seus membros certa solidariedade nas afeições e nos interesses... Por seus antecedentes na vida pública e importante pelos cargos que exerceu, por ser chefe de uma numerosa família, o Barão de Souza Queiroz podia exercer na política da Província uma influência real e indispensável na direção do seu partido. Entretanto, assim não acontece.


Modesto e calmo, afasta-se e figura entre os correligionários, mais como uma recordação das lutas passadas, do que como chefe ativo e responsável pela política da atualidade. Retraído das discussões políticas, velho e cansado, o laborioso cidadão entrega-se hoje todo à família e ao Instituto D. Ana Rosa”.


O Instituto Dona Anna Rosa foi fundado em 1874, mas, sendo insuficiente a quantia deixada em legado para criar a entidade, no ano seguinte o barão reuniu 60 pessoas, entre filhos, parentes e amigos, dispostos a colaborar financeiramente, e criou por ata o Conselho da Sociedade Protetora da Infância Desvalida, que hoje tem o nome de Associação Barão de Souza Queiroz de Proteção à Infância e à Juventude, entidade mantenedora do Instituto. Ele mesmo fez uma doação de 12:000$000 (doze contos de réis). Cada filho deveria entrar com 5 contos de réis. Os filhos que ainda não tinham completado a sua quota foram descontados no testamento do Barão, do que restava a pagar.


Dois anos depois de criado, o Instituto já contava com 94 alunos e uma reportagem do jornal “O Estado de S. Paulo” mostra a dedicação do Barão ao estabelecimento. “O iniciador do Instituto, senador Queiroz, presidente do diretório da associação, exerce sobre o estabelecimento solícita e paternal inspeção. É atualmente aquela casa a sua preocupação de todos os dias e de todas as horas; raríssimo é o dia em que deixa de estar no estabelecimento por muitas horas, examinando tudo, questionando, investigando e determinando medidas a propósito dos mais acidentais negócios. Fez daquele núcleo de crianças a sua segunda família. Isso prova que o respeitável cidadão compenetrou-se deveras da alta importância social daquela instituição, e por isso a cultiva como preciosa planta destinada a dar, já diretamente, já pelo exemplo, magníficos frutos”.


O Barão foi muito elogiado igualmente por seu esforço em prol da mão de obra livre, na agricultura. É de Rangel Pestana o depoimento de que “o sr. Souza Queiroz, secundando os nobres esforços do seu ilustre sogro, o senador Vergueiro, começou a introduzir em seus estabelecimentos agrícolas os braços livres por meio de contratos com os estrangeiros. Nessa propaganda prática em favor do trabalho livre, o sr. Souza Queiroz revelou sempre muito bom senso, muita coragem e tenacidade. Nessa luta contra os preconceitos criados pela educação e pelas próprias instituições sociais, provou ser paulista e, pode-se dizer, que saiu vitorioso”. E Rangel Pestana afirma que “uma das causas das boas relações do sr. Barão de Souza Queiroz com os colonos, é a bondade com que costuma se haver na execução dos contratos: cede até onde pode...”.


Outra fonte diz que, em sociedade com seu sogro, senador Vergueiro, em 1847, foi feita uma experiência de tocar uma fazenda com mão de obra livre. A campanha em favor do trabalho livre foi mais ampla, porém, dela participaram principalmente o senador Vergueiro, o barão de Souza Queiroz e seu irmão, o coronel Luiz Antônio de Souza Barros. Foram os três que fundaram núcleos de trabalhadores livres, tanto imigrantes do Sul da Alemanha, como brasileiros, construindo lado a lado colônias (conjuntos de moradias) para imigrantes e para colonos brasileiros, para que esses aprendessem as modernas técnicas agrícolas dos europeus.


Até hoje o sr. Souza Queiroz mantém-se firme no posto de propagandista do trabalho livre, agitando os interesses dos seus conterrâneos por meio do exemplo e dos conselhos da experiência. De 1853 para cá, por esforços próprios, o respeitável cidadão conseguiu introduzir no País cerca de dois mil imigrantes de diversas nacionalidades e elevar suas colônias a um grau de prosperidade a que, não nos consta, nenhuma outra, por seu sistema, tenha atingido”.


A fortuna do barão era de 12.000 contos de réis, numa época que o Banco de São Paulo tinha apenas 2.000 contos. À época da proclamação da República, 1.000 réis era igual a uma libra esterlina.


 

SENADOR VERGUEIRO

 

Nicolau Pereira de Campos Vergueiro nasceu em 20 de dezembro de 1778, em Val da Porca, freguesia de São Vicente, termo de Bragança, em Traz os Montes, Portugal, e faleceu no Rio de Janeiro em 17 de setembro de 1859, aos 81 anos. Era filho do dr. Luiz Bernardo Vergueiro e Clara Maria Borges de Campos. Apesar de não ser de família rica, teve educação esmerada, tornando-se Bacharel em direito civil em 1801, pela Universidade de Coimbra.


Em 1803 veio para o Brasil e passou a residir em São Paulo, cidadezinha de 20 mil habitantes, dos quais 6 mil eram escravos.


Juntamente com os irmãos Arouche, Manuel Eufrásio de Azevedo Marques e Manuel Joaquim Ornellas, o imigrante abre o primeiro escritório de advocacia da vila, na rua Direita, exercendo a profissão até 1815.


Casou-se em 1804 em São Paulo com Maria Angélica de Vasconcellos natural de Juqueri. Do casamento nasceram: Antonia Eufrosina, Carolina, Angélica, Luiz, José, Maria do Carmo, Francisca, Nicolau, Joaquim e Anna. Destes, Antonia Eufrosina de Campos Vergueiro casou-se com o barão de Souza Queiroz. Luiz formou-se em direito pela Universidade de Göttingen. Nicolau José foi nomeado Visconde de Vergueiro, lutou como 1º tenente do 36º Regimento de Infantaria da Prússia na guerra entre Bélgica e Holanda, e respondia pela casa de Santos de “Vergueiro & Cia”. Nicolau estudou comércio em Londres e Hamburgo e dirigiu a casa “Vergueiro & Filhos” no Rio. Joaquim teve longa prática mercantil na Inglaterra e Alemanha.


Vergueiro teve uma das vidas mais ricas do Brasil antigo. Senador, representante brasileiro nas Cortes Portuguesas, ministro, presidente da Província, regente do Império, advogado, promotor dos Resíduos, juiz das sesmarias da província, juiz ordinário de São Paulo e vereador da câmara municipal. Foi também cafeicultor, introdutor da vitivinicultura no País (técnica de cultura da videira e de sua produção), construtor de estradas e historiador. Orgulhava-se ter sido pioneiro no uso da mão da obra livre na agricultura, 40 anos antes da abolição da escravatura, pagando do próprio bolso a vinda de imigrantes minhotos para o Brasil.
Desde cedo, encantou-se com a agricultura da nova terra e em 1807 adquiriu em parceria com seu sogro, José de Andrade Vasconcellos, a sesmaria de Morro Azul, perto do rio Piracicaba, construindo ali o Engenho do Limoeiro. Em 1814 adquiriu a sesmaria Monjolinho, em Araraquara, onde introduziu a criação de gado.


Entusiasmado com as possibilidades da terra, ligou-se em 20 de julho de 1816 ao brigadeiro Luiz Antônio, através da sociedade “Vergueiro & Souza”, participando com duas propriedades, as fazendas Monjolinho e Limoeiro, enquanto o Brigadeiro entrou com dinheiro. As propriedades dos sócios eram lindeiras e com o acréscimo das fazendas Taquaral e Monte Alegre, adquiridas pelo brigadeiro Luiz Antônio, tornaram-se uma imensidão de terras, às quais acrescentaram a fazenda Pau Queimado, se estendiam de São Carlos até as proximidades da atual Bauru.
Vergueiro passou a ter recursos para seus projetos, financiado pelo Brigadeiro. Abandonou a banca de advogado e mudou-se para o sertão de Piracicaba, onde passou a cuidar de trabalhos agrícolas e foi nomeado inspetor das estradas do distrito.


Em 21 de junho de 1821, Vergueiro foi aclamado para integrar o Governo Provisório da Província, como deputado da Agricultura. No mesmo ano foi eleito deputado às Cortes de Lisboa, aonde chegou em fevereiro de 1822, após uma viagem de 84 dias. De tal forma ligou-se à Pátria adotiva, porém, e como não assinou a Constituição votada pelas Cortes em Lisboa, por considerá-la desfavorável ao Brasil, foi considerado um traidor pelos portugueses.


Proclamada a independência, Vergueiro só voltou ao Brasil em 1823 e passou a representar São Paulo na Assembléia Constituinte, aliando-se aos Andradas num movimento de oposição. Foi preso e enviado para a Fortaleza de Santa Cruz, enquanto os Andradas foram exilados.


Nos anos seguintes, Vergueiro envolveu-se na luta pela criação dos cursos jurídicos no Brasil, ao lado daqueles que defendiam, como o cônego Januário da Cunha Barbosa, que o curso devia vir para a capital paulista, contra aqueles que diziam ser São Paulo um lugar impróprio, uma vila atrasada, com apenas vinte mil habitantes, e passível de contaminar os estudantes de fora com o “horroroso sotaque paulista”.


Após acalorado debate, a 11 de agosto de 1827 foram criados em São Paulo e Olinda, simultaneamente, os dois primeiros cursos jurídicos do Brasil, por decreto de D. Pedro I. O curso de São Paulo foi o primeiro a ser implantado, sob a direção do Tenente-General José Arouche de Toledo Rendon, liberal moderado, e seu primeiro lente foi o Conselheiro José Maria de Avelar Brotero, liberal exaltado, ilustre jurista da Universidade de Coimbra, que tinha sido chamado especialmente para ministrar o Curso de Direito no Brasil, dando consistência a seu conteúdo científico.


A aula inaugural aconteceu em 1º de março de 1828, às 16h, e foi proferida por Avelar Brotero. A presença deste primeiro lente marcou a orientação filosófica da Academia de São Paulo durante os 44 anos em que nela permaneceu, até 1871. Dentro do mais puro espírito iluminista, escreveu um Compêndio de Direito Natural, onde se sente a nítida influência de mestres como Mably e von Holbach, entre outros, que se ligam à origem do pensamento radical e até socialista. Por suas posições avançadas, o Compêndio recebeu o veto da Assembléia Geral e da Congregação da Academia de Olinda, mas o velho mestre permaneceu firme em São Paulo, onde conduzia seu Curso de Direito Natural como bem desejava. Foi ele, como disse Spencer Vampré, "quem, até hoje, mais longa e mais relevante folha de serviços possui na Academia, nascida e embalada, por assim dizer, nos seus braços”.


Os descendentes do Conselheiro Brotero uniram-se várias vezes à família Souza Queiroz: pelo casamento de Nicolau de Souza Queiroz, filho do barão, com Isabel Dabney de Avelar Brotero, filha do Conselheiro; pelo casamento de Francisco de Aguiar Barros Filho, filho de Maria Angélica, filha do barão, com Ana Brotero; e também pelo casamento de Maria Angélica de Campos, neta da mesma Maria Angélica, com Carlos Abranches Brotero, feliz união de que nasceu, Maria Cecília, que foi presidente da Asociação de 2003 a 2013.


Em 28 de janeiro de 1837, Vergueiro tornou-se o quarto diretor do Curso Jurídico de São Paulo, tomando posse a 13 de março.


A sociedade “Vergueiro & Souza” foi muito próspera, duplicando o valor de seus bens, de 26 para 58 contos, em nove anos de sociedade. Com o falecimento do Brigadeiro, em 1819, Vergueiro reduziu a pecuária e as plantações de cana-de-açúcar, em prol dos cafezais, ajustando a dissolução da firma em 1825, com José de Costa Carvalho, futuro marquês de Monte Alegre.


Na dissolução, Vergueiro ficou com Ibicaba e Tatu, que correspondiam em parte a Limeira, Rio Claro e Araraquara. Era tão grande as dimensões das terras deixadas pela empresa, que, em 1822, quando se formou o novo município de Vila Nova da Constituição, este se fez integrando terras das fazendas Monjolinho, Morro Azul, Limoeiro, Monte Alegre, Taquaral e Pau Queimado, as quais, desmembradas, formam atualmente cerca de 3.000 propriedades rurais.


Em 1825 retirou-se para a Ibicaba, propriedade modelo, mas também foi eleito deputado-geral por São Paulo e desempenhou o mandato até 1828, quando foi eleito senador por Minas Gerais. No Rio, em 1831, tomou parte ativa no movimento do qual resultou a abdicação de Pedro I. Em decorrência, no dia 7 de abril do mesmo ano foi eleito membro da Regência Trina Provisória, integrada ainda pelo futuro Marquês de Caravelas, José Joaquim Carneiro de Campos e pelo brigadeiro Francisco de Lima e Silva, pai do duque de Caxias. Tornou-se assim um dos três homens encarregados de gerir o Brasil na minoridade de D. Pedro II. Quando o Congresso elegeu os regentes permanentes em 1832, pediu para não ser incluído entre eles, mas continuou como senador e ministro do Império.


Na São Paulo que se enriquecia com o café cultivado pelos negros, em meados do século XIX, Vergueiro, sogro do barão de Souza Queiroz, inovou ao plantar 1,2 milhão de cafeeiros na fazenda Ibicaba, em Limeira, e pouco depois também na fazenda Angélica, através de parceria com colonos livres.


Conta Tito Lívio Ferreira em “História de São Paulo”, que “em 1840 o senador Vergueiro manda vir, à sua custa, para sua fazenda, em Piracicaba, cerca de oitenta colonos portugueses. Inaugura o sistema de parceria agrícola. A tentativa falha por causa da revolução de 1842. Em julho de 1847 a Colônia Vergueiro, na fazenda Ibicaba, hoje município de Limeira, organiza-se com o remanescente de portugueses da fazenda Angélica, de Piracicaba, e mais 423 imigrantes contratados na Alemanha. Estava aberta a corrente imigratória. Abrem-se em dez anos, cerca de 60 colônias, com perto de 60.000 imigrantes”.


Vergueiro lutava pela introdução de trabalhadores livres desde 1835, quando propôs ao Congresso a criação de uma sociedade que traria trabalhadores para as fazendas, porém seu plano não foi aceito. Em 1841, antevendo o caos que se estabeleceria na Província com a queda da escravatura e conseqüente falta de mão-de-obra mandou buscar por conta própria 80 famílias de portugueses, as quais pagou a viagem, garantiu a subsistência por um ano e ofereceu a condição de meeiros. Poucos depois, em 1847, considerando que os resultados tinham ficado aquém do esperado, mandou buscar, dessa vez com auxílio do Governo, 80 famílias de colonos alemães, num total de 400 pessoas. Dizia Vergueiro que seu objetivo era que as fazendas se transformassem em “viveiros ou escolas normais agrícolas” para os imigrantes.


A iniciativa foi seguida por 37 fazendeiros paulistas que também desistiram definitivamente da mão de obra escrava, valendo-se da mão de obra de 3.600 imigrantes, entre os quais belgas, alemães, suíços e portugueses. Entre os fazendeiros que seguiram seu exemplo estão o Visconde de Indaiatuba, sogro de Augusto, filho do barão de Souza Queiroz, na fazenda Sete Quedas, Antônio de Souza Queiroz, também filho do barão, na fazenda Tabajara e Luis Antônio de Souza Barros, irmão do barão de Souza Queiroz, na Fazenda São Luiz.


A luta de Vergueiro pelo fim da escravidão era antiga. Quando regente, na minoridade de Pedro II, fez libertar os escravos empregados no serviço público e impediu a entrada de novos escravos no Brasil. Às pressões contrárias, respondia que cumpria acordo feito em 1826 com a Inglaterra. Em 1831 apoiou o projeto que declarava livres os escravos introduzidos no Brasil após aquele ano. Lei que embora aprovada, não foi cumprida. Apesar de doente desde 1828, ocupou a Pasta do Império e interinamente a da Fazenda, no 3º Gabinete da Minoridade. Organizou o Gabinete de 1832, acumulando as pastas do Império e Fazenda.  Em 1835 sua saúde piorou, sofrendo de grave moléstia do coração, mas mesmo assim foi eleito vice-presidente de São Paulo, cargo em que se manteve até 1837.


Participou, juntamente com os irmãos Andrada, do golpe liberal da Maioridade e, em 1841, quando da coroação de D. Pedro II, foi agraciado com a Grã-Cruz da Imperial Ordem do Cruzeiro. Posteriormente, ao lado do padre Diogo Antônio Feijó e do brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar tomou parte na Revolta dos Liberais, em 1842, e quando a revolta foi esmagada pelo então Barão de Caxias, Vergueiro foi preso por dois anos, por ser um dos inspiradores do movimento.


Em 1846 foi nomeado gentil-homem da Câmara Imperial e, posteriormente, membro do Conselho do Imperador. Em 22 de maio de 1847 assumiu o Ministério da Justiça e, em 20 de outubro do mesmo ano, o do Império. Foi também historiador, escreveu um livro sobre a fundação da Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, destacando a importância que teve para o País, “Memorial histórico sobre a fundação da fábrica de ferro de São João de Ipanema, na Província de São Paulo”.


Das obras que iniciou, a única que abandonou foi a vitivinicultura. Após produzir o primeiro vinho brasileiro, foi surpreendido pela denúncia de que o vinho era falsificado. Contrariado, manda amostras para análise na Europa, onde foi comprovada a boa qualidade do produto, porém em nova análise feita no Brasil voltou a indicação de falsificação e, irritado, Vergueiro mandou arrancar todas as parreiras. Meses depois vem a público a verdade, o capataz do senador, subornado por importadores de vinho, substituíra todas as amostras enviadas ao exame bromatológico por produto falsificado, para que a venda do vinho brasileiro fosse formalmente proibida.